Experiência

A experiência de um estudante voluntário no SMACC Sydney 2019

Eu me lembro como se fosse hoje a primeira vez que ouvi sobre o movimento do Free Open Access Medical Education (FOAMed). Eu era um dos organizadores de um simpósio de Medicina de Emergência das Ligas Acadêmicas da minha cidade (Porto Alegre) e a gente decidiu colocar como uma das últimas palestras um estudante chamado Henrique Puls. Ele era um entusiasta da Medicina de Emergência e, na época, liderava a International Student Association of Emergency Medicine (ISAEM). Ele veio e falou um pouco sobre a ISAEM, mas me “injetou” um veneno que jamais sairia do meu corpo: o tal do #FOAMed. Depois daquela palestra, acabamos virando bons amigos e começamos a trabalhar juntos. Nosso trabalho rendeu tanta coisa que não caberia nesse post, mas uma das sementes que o Henrique plantou, acabou florescendo nesse ano de 2019.

Quando comecei a ser introduzido no mundo do #FOAMed, o Henrique me falou de um congresso chamado SMACC – Social Media and Critical Care Conference. Na época, não fazia o menor sentido: um congresso de pessoas que cuidam de pacientes críticos com palestras estilo TED e com simulações doidas ao vivo no palco. Eu pensava: será que isso existe mesmo? Olhava os vídeos e cada ano que passava, ficava mais entusiasmado em participar. Foi então que o Henrique e o Daniel Schubert, outro amigo e atual residente de Medicina de Emergência no RJ, foram pioneiros (como sempre) e participaram como estudantes voluntários no SMACC Berlin. Cada Tweet e cada post deles durante o congresso me deixavam com mais vontade de um dia participar. Foi então que em 2019 surgiu a oportunidade e participei do processo seletivo. O SMACC 2019 seria na Austrália e não poderia perder a chance de tentar ir para um dos países mais bonitos do mundo. As perguntas do processo seletivo exigem um tanto quanto de criatividade e, honestamente, nunca pensei que fosse passar. Quando recebi o e-mail de aceite, meu coração disparou de alegria. E sabe o que foi melhor ainda? Apliquei junto com minha companheira (Marianna Fischmann), também entusiasta da especialidade e do movimento #FOAMed, e acabamos sendo ambos aceitos! Iríamos para Sydney e faríamos parte do time de estudantes voluntários do SMACC, um dos melhores congressos do mundo quando se fala em cuidados de pacientes críticos.

O grupo de voluntários desse congresso sensacional se chama SMACC Junior. Ele é composto por estudantes da área da saúde do mundo inteiro. No ano de 2019, foram 25 estudantes selecionados. Dentre eles, estudantes de Medicina, Enfermagem, Farmácia e Paramedicina (pré-hospitalar).

O SMACC 2019 aconteceu em Sydney, Austrália, nos dias 25 a 29 de março de 2019. Chegamos em Sydney no dia 23 de março (sábado) após longas 36 horas de viagem, contando aeroportos e voos. Logo no domingo, já tivemos a primeira reunião do SMACC Junior e ali já deu para sentir a energia do grupo. Estudantes de 11 países com backgrounds totalmente diferentes, mas com um interesse em comum: aprender!

Material dos estudantes voluntários. Precisávamos estar sempre vestidos de azul (identificação do SMACC Junior), ou de preto, quando precisávamos estar no Backstage.

 

Reunião pré-congresso com o time do SMACC Junior.

 

Mas quais eram as tarefas que nos foram dadas durante o congresso? O que fazia o tal do SMACC Junior? Pois bem, nós éramos o famoso “Severino, faz tudo”. Entretanto, algumas tarefas eram chaves:
⦁ Credenciamento de todos inscritos no congresso;
⦁ Ajudar na organização das pessoas no centro de eventos (que era gigante), ajudando o pessoal a chegar na sala certa, na hora certa;
⦁ Apoio humano nos workshops (Ex.: como manequins, manejo de tempo, etc);
⦁ Participação nas atividades do palco principal (a mais legal na minha opinião!);
⦁ Ajudar palestrantes no backstage;
⦁ Representar a alma jovem e inspiradora da comunidade do SMACC.

Um detalhe: tínhamos que estar todos os dias perto das 06:00 AM no centro de eventos e saímos em torno das 06:00PM. Ou seja, trabalho duro de segunda à sexta!
Na segunda-feira, iniciaram-se os workshops. Como sou um entusiasta da Medicina Baseada em Evidências e um aspirante a pesquisador, acabei sendo alocado para o workshop chamado “Research Dark Arts”, que abordava as nuâncias e os desafios por trás do mundo acadêmico. Nesse workshop, os palestrantes/líderes eram nada mais nada menos do que Paul Young, Steve Webb, John Myburgh e demais colaboradores do Australian and New Zealand Intensive Care Research Society (ANZICS). Foi uma oportunidade incrível ajudar essas feras e ainda por cima aprender a lidar com os desafios de se tornar um pesquisador de sucesso.

Na terça-feira, fui alocado para um dos workshops que mais queria participar: SMACC Airway. Manejo de vias aéreas sempre foi um dos meus maiores interesses desde que comecei a estudar emergência, e ter a oportunidade de aprender com experts como Scott Weingart, foi um momento único.

 

Depois de um dia incrível na terça, fomos recompensados com um jantar com todos palestrantes e pessoas envolvidas na organização dos Workshops. O evento foi um “happy hour” na beira da praia de Cougee Beach. Além do lugar espetacular, esse evento foi essencial para aumentar a rede de contatos com pessoas do mundo inteiro.

Na mesma noite de terça, ainda tinha a GELFEST Party, uma festa muito doida inventada no SMACC em que alguns entusiastas de educação médica levam alguns brinquedinhos para o pessoal se divertir enquanto bebe algumas. A clássica atração dessa festa é o famoso simulador SALAD, inventado por James DuCanto, onde o pessoal treina a sua técnica (Suction Assisted Laryngoscopy for Airway Decontamination) sob efeito de alguns drinks (rsrsrs).

Marianna aprendendo a técnica SALAD com James DuCanto.

Depois de 2 dias intensos de workshops e uma noite cheia de atrações, o congresso começaria na quarta-feira pela manhã. A ansiedade era grande pois nós, voluntários, iríamos credenciar quase 3000 pessoas. Estávamos todos muito empolgados, e acho que isso foi essencial para que tudo corresse da melhor maneira possível.

Credenciamento dos inscritos no 1o dia de congresso.

Falar da cerimônia de abertura do SMACC é um pouco difícil, pois não existe absolutamente nada parecido. Foi literalmente um SHOW. É difícil acreditar que um congresso médico conseguiria fazer algo desse tipo. Ah, e vale lembrar que o SMACC tem uma filosofia bem bacana: só existe 1 palco principal durante o congresso, onde acontecem todas as palestras. Ou seja, não existe aquilo de ficar preocupado que você está perdendo outra palestra em outra sala. Eles focam tudo em 1 lugar só, com as melhores palestras que você pode imaginar.

Abertura do SMACC Sydney 2019.

Depois de uma abertura incrível, começou o show de palestras e discussões. Como voluntários, tínhamos várias tarefas para fazer durante o congresso, mas praticamente sempre ficávamos disponíveis para assistir tudo que estava rolando. Só tínhamos que ficar atentos ao nosso cronograma para estar no lugar certo, na hora certa. Por exemplo, algumas vezes nos intervalos eu liderei o SMACC Genius Bar, que era um estande no Exhibition Hall para ensinar os congressistas a adentrar no mundo do #FOAMed, criar uma conta no Twitter, etc.
Quando sobrava um tempo, brincávamos com os estandes de simulação do congresso.

Na foto, eu e o Floris, estudante voluntário da Bélgica, intubando um boneco dentro de um carro.

Time do SMACC Junior fazendo torcida organizada para o Ken no palco principal

E, infelizmente, chegamos ao fim. Mas pera, esse não seria o último SMACC da história? Sim, e foi. Mas os organizadores do SMACC, Roger Harris e Oli Flower, tinham uma surpresa para o fim. O anúncio de que o movimento do SMACC continuaria, porém com outro nome e com um movimento um pouco mais ambicioso. O nome é CODA. Eles juntaram 3 “entidades” gigantes para tentar criar um congresso/fórum que vai visar combater os principais problemas de saúde no mundo. Essas entidades são: comunidade do SMACC, New England Journal of Medicine e o The George Institute.

Dê uma olhada no site do CODA change: https://CODAchange.org

Após o fim dessa jornada espetacular, eu e a Marianna conseguimos explorar um pouco a cidade maravilhosa de Sydney. Talvez a cidade mais legal que já conheci até hoje.

Surf em Manly Beach após o fim do congresso.

Não posso negar, entretanto, que fiquei um pouco enviesado. Ir para um lugar como esse e passar por tudo que passei durante o SMACC mudou minha vida de certa maneira. As pessoas, as conversas, as palestras, cada pedaço do SMACC mudou algo em mim. Eu tenho certeza que essa experiência mudou a vida de muitas pessoas. Todos nós saímos da Austrália com uma única sensação: empolgados para nos tornar pessoas melhores e, consequentemente, cuidar melhor dos nossos pacientes!

Se tivesse que resumir em palavras a experiência que foi viver o SMACC, eu diria:
⦁ Emoção;
⦁ Inspiração;
⦁ Empatia;
⦁ Humanidade.

SMACC, obrigado por essa oportunidade incrível!

Time do SMACC Junior com os queridos Oli Flower e Roger Harris ao final do congresso.

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